sábado, 14 de julho de 2018

Resenha: Cantando na Chuva

Cantando na Chuva - Capa DVDTítulo Original: Singin' in the Rain

Título Nacional: Cantando na Chuva

Direção: Gene Kelly, Stanley Donen

Gênero: Comédia, musical, romance

Duração: 1h42min

Estreia: 30 de Junho de 1952









Cantando na Chuva é um filme musical clássico. A cena em que a música de mesmo nome é cantada sempre é referenciada em diversos trabalhos e por isso é muito conhecida.

A história do filme se passa nos anos 1920, numa época em que o cinema falado está chegando, e começa uma corrida entre os estúdios para fazerem filmes com som. Mas existem problemas técnicos no início, por ser uma tecnologia nova. É mostrado como os filmes eram feitos antes da chegada do som, e depois, quando tiveram que se adaptar ao novo momento, e como era feita a captação do áudio. Os atores também tiveram que se adaptar, pois a forma da atuação que era feita antes, mais gesticulado e parecido com o teatro, tinha que ser substituído por um jeito mais discreto. Agora os atores não tinham apenas que fazer gestos e expressões faciais, mas tinham que ser convincentes falando o texto, para que tudo pudesse sair natural.

E então surgiram os filmes musicais, que deixavam o filme parecido com uma peça de teatro musical, e ainda permitia os atores usarem bem o “palco” com gesticulações e danças. Olhando sob esse ponto de vista, acho que foi por isso que antigamente existiam tantos filmes musicais. Eles queriam explorar ao máximo a nova tecnologia, já que antes isso não era possível. Assim, os filmes musicais tiveram um papel importante para o desenvolvimento do cinema. Talvez seja por essa falta do fator novidade que hoje são poucos os filmes musicais produzidos.

As músicas do filme têm letras sem sentido, parecem que foram inventadas na hora e não dizem nada com nada. Tem uma cena em específico, que é a “Broadway Ballet” (Canção de Broadway), que é bem longa e nem faz parte da história principal do filme. Já as danças ficaram boas. Eles usaram muitos as pernas e davam vários pulos e saltos. O sapateado é predominante nas cenas de dança.

Dá para ver que algumas cenas serviram de inspiração para La La Land: Cantando Estações, como a cena da música “A Lovely Night”, que se inspirou no sapateado de Cantando na Chuva, na cor do sapato usado pelos personagens (que é preto e branco), na parte da volta no poste, da forma que as pernas ficam sincronizadas entre os atores durante a dança, e na cor do céu (a cor do céu de La La Land me pareceu inspirada na cena que Don se declara para Kathy dentro do estúdio).

Apesar das músicas não terem me chamado atenção, Cantando na Chuva é um bom filme, tendo momentos engraçados (principalmente com o personagem Cosmo), boas danças, e cenas que se destacam, além de mostrar como foi o período de transição da indústria cinematográfica entre filmes mudos e filmes falados com bom humor. O roteiro e o romance são básicos, mas mesmo assim o resultado final foi ótimo.

Nota:

quinta-feira, 12 de julho de 2018

Resenha: The China Hustle

The China Hustle - PôsterTítulo: The China Hustle

Direção: Jed Rothstein

Gênero: Documentário

Duração: 1h24min

Estreia: 30 de março de 2018










Frase de destaque: As empresas mentem. As empresas só pensam nos próprios interesses, não nos de uma comunidade ou povo. As pessoas precisam pensar nelas mesmas.

The China Hustle é um documentário que fala sobre como analistas de investimento descobriram que empresas chinesas que abriram capital nas bolsas de valores dos Estados Unidos eram fraudes, usando empresas americanas como fachada e anunciando grandes resultados e dinheiro que nunca existiram. Na prática, o que aconteceu foi que essas empresas roubaram dinheiro dos investidores, e estes nunca mais recuperaram de volta o dinheiro investido. É daí que vem o nome do documentário.

O documentário tem um estilo não convencional, já que ele não filma apenas os envolvidos durante a entrevista, e sim também no dia a dia, de forma que parece duvidoso se eles estão fazendo aquelas coisas naturalmente, ou simplesmente atuando para parecer natural. Em alguns momentos parecia até uma mistura de filme ficcional com documentário. Ele também tem algumas cenas externas que nem sempre casa tão bem com o que está sendo falado no momento pelo convidado ou pelo narrador. Mas nada disso diminui a qualidade e a importância do conteúdo do documentário.

O conteúdo é revelador, e nos abre os olhos sobre investimentos em empresas chinesas nas bolsas de valores dos Estados Unidos. São tantas empresas de fachada, divulgando dados falsos, e tantas já descobertas como fraudes, que fica difícil até não desconfiar de grandes empresas, como a Alibaba, que é citada no final do documentário. Faz o investidor pensar duas vezes antes de colocar dinheiro em empresas chinesas.

Nota:

terça-feira, 10 de julho de 2018

Resenha: Luke Cage – 2ª temporada

Luke Cage - 2ª temporada

Atenção: esta resenha contém spoilers.

A imagem acima da 2ª temporada de Luke Cage, que mostra ele carregando o Harlem nas costas, resume bem as histórias dessa temporada, que é a de Luke Cage tentando manter a ordem no Harlem e combatendo diversas frentes da criminalidade.

Já tinham prometido que essa temporada iria ser mais sombria, o que não me agradou muito, porque eu gostava da pegada leve da 1ª temporada. Mas, por sorte, ele não ficou tão sombrio assim. Só os três primeiros episódios que ficaram muito dramáticos, mostrando um Luke diferente, impaciente, agressivo. Em determinado momento do episódio 3 ele diz a Claire: “Acha que procuro essa merda? Eu nunca quis isso. Nada disso”. Mas é claro que ele procura. Não é porque ele tem superforça e é a prova de balas que precisa ficar indo atrás de bandidos e arriscando ir preso como já foi outras duas vezes.

Quando Claire vinha com o discurso de ter cuidado e de não ser violento com Matt em Demolidor eu achava chato, e ela era uma personagem chata. Mas em Luke Cage, ela foi bem desenvolvida desde a temporada passada, e nessa temporada esse discurso dela não me soou chato porque Luke é diferente de Matt. Vi algumas pessoas reclamando que ela estava chata, que esse discurso de que herói não pode matar ou ferir já cansou, etc., mas acho que as pessoas é que estão (mais uma vez) com expectativas erradas para as séries da Marvel/Netflix que não sejam Demolidor e O Justiceiro. O que as pessoas têm que entender, e que eu já falei aqui em outros textos, é que cada herói tem seu estilo. Dessa forma você aceita quando Frank Castle mata alguém, aceita se Matt deixa alguém muito ferido, mas não dá para aceitar se for Jessica Jones ou Luke Cage fazendo isso, porque esse não é o estilo deles (a não ser em alguma exceção, como no caso de Kilgrave). E nesse caso o discurso funciona muito bem, principalmente porque não é apenas a violência que está sendo abordada. O discurso da série vai mais a fundo, falando de ego, o sentimento de poder (que Luke demonstra desde o primeiro episódio dessa temporada), a masculinidade, a violência doméstica e problemas do passado mal resolvidos. Ou seja, não é um simples discurso de “herói não pode matar, herói não pode machucar”. Essa temporada está mais realista e séria, Luke mudou, mas não de um jeito clichê, e sim de um jeito bem trabalhado. Digo isso tranquilamente, mesmo não gostando dos rumos que o personagem tomou. Como eu disse, eu preferia ele mais leve, bem-humorado e despreocupado como na 1ª temporada. Nessa temporada ele está em decadência emocional e moral, e além do ego grande, ele se tornou violento. Todos os temas que falei aqui foram abordados na discussão de Claire e Luke nesse 3º episódio, e foi uma boa discussão.

Falando em Claire, depois do 3º episódio ela não aparece mais, o que acho uma pena. Pelo visto ela não é mais uma personagem importante no universo das séries da Marvel/Netflix a ponto de ficar aparecendo em todas as séries, já que agora todo mundo já sabe que todas se passam no mesmo universo. Mas para mim ela apareceria com destaque nessa temporada de Luke Cage, assim como foi na temporada anterior, e seria uma personagem fixa da série. Eu espero que ela não seja esquecida e seja bem aproveitada em alguma das séries, ao invés de apenas fazer pequenas participações, porque ela é uma boa personagem e com bom potencial.

Depois do episódio 3 Luke deixa de ficar tão dramático e de ego grande, porque ele é nocauteado duas vezes por Bushmaster, então volta para o lugar dele e percebe que não é invencível. A partir daí a série passa a discutir o tema de “rei/rainha” do Harlem. Bushmaster e Mariah antagonizam entre si, disputando o “reinado” do bairro, da boate e da criminalidade. No meio disso está Luke Cage, que tenta hora combatê-los, e hora protegê-los um do outro. Ele é um herói, e por isso evita que eles se matem, apesar de dizer que gostaria que isso acontecesse. É por isso que tem um momento que Luke ajuda a tia de Bushmaster, porque ela está para sendo procurada para ser morta por Shades. É por isso que Luke ainda protege Mariah duas vezes porque ela está para ser morta por Bushmaster, e quando ela percebe isso, tira vantagem. É por isso também que tem um momento que Luke luta ao lado de Bushmaster, porque eles têm interesses em comum sobre uma fabricante de drogas. Ele age quase como um anti-herói, às vezes de um lado ou de outro, mas sempre do lado certo, com o objetivo de manter a paz e diminuir a criminalidade e as mortes. Mesmo que Luke não obedeça à polícia e aja por conta própria, ele não quer matar ninguém, e sim que a pessoa seja presa e pague pelo que fez.

Luke Cage - 2ª temporada - Bushmaster

Bushmaster lutando com Luke Cage

Vi alguns comentários de gente dizendo que a história dessa temporada estava parecida com Pantera Negra, por ter uma planta que dava força, por ter um vilão voltando às suas origens para ter uma vingança pela morte de seu ente querido no passado, pela luta por poder (que no filme se trata do trono de Wakanda, e na série se trata da boate e da bandidagem do Harlem). Eu não tinha reparado nisso até ver esse comentário. Realmente, os dois são parecidos, mas acho que foram executados de forma diferente. Em Pantera Negra o destaque termina sendo bem mais em relação à disputa de poder, enquanto que aqui na série Bushmaster quer tanto o poder quanto a vingança pessoal, e os dois lados são bem trabalhados (principalmente depois do episódio 7, que mostrou o passado do vilão). Acho a trama de Luke Cage melhor do que a de Pantera Negra, por ela ser mais realista e menos “super-heroica”, que faz com que a série tenha uma profundidade que o filme não conseguiu passar, na minha opinião. E a série também é mais complexa do que o filme, já que no filme a luta é entre dois lados apenas, enquanto na série são 3 lados principais (Bushmaster, Mariah e Luke), fora a polícia, que serve de coadjuvante.

Mas no fundo as estruturas das histórias, principalmente as dos filmes, são bem parecidas, mas mesmo assim uns filmes se saem bem melhor do que outros, e acho que é a mesma coisa aqui em relação a Pantera Negra e Luke Cage. Nesse caso, na minha opinião quem se saiu melhor foi Luke Cage. Como eu falei na resenha de Pantera Negra, o filme não me surpreendeu, apesar de eu gostar do Pantera Negra como personagem e da sua interação com os outros personagens do MCU.

Misty Knight tem um bom desenvolvimento, principalmente depois que ganha o braço biônico, mas queria vê-la mais em ação. Ela vai estar na próxima temporada de Punho de Ferro, e espero que seja bem aproveitada. Nessa temporada de Luke Cage foi mostrado que ela mantém contato com Colleen e Danny depois do ocorrido em Os Defensores.

Luke Cage - 2ª temporada - Misty Knight

Misty Knight com seu braço biônico lutando ao lado de Luke Cage

A relação de Luke com o pai é bem desenvolvida ao longo da temporada, e contribui para a mudança positiva de Luke até certo momento da temporada. Willis é apenas citado, mas não aparece. Ninguém sabe se estão guardando ele para outro momento ou se descartarão, já que ele não foi um bom vilão na 1ª temporada. O fato é que ele está vivo, como foi mostrado no final da temporada anterior.

Shades foi um personagem muito bem trabalhado nessa temporada. É mostrado que apesar dele ser um assassino frio, ele também tem limites, e não aceita quando esses limites são cruzados. Apesar de tudo o que ele faz ser ilegal, ele tem regras morais que segue, e que diz que os outros também seguiam, e assim todos se entendiam, mas que agora essas regras estavam sendo quebradas e tudo estava virando uma bagunça. É por causa desses limites sendo ultrapassados que ele quis matar Cornell na temporada passada, e por isso que ele entregou Mariah à polícia nessa temporada. Dá para ver a cara dele de chocado com a atitude e frieza de Mariah quando ela manda matar todo os parentes de Bushmaster e depois queima o tio dele.

A série chega a sugerir que irá seguir a temática dos Heróis de Aluguel, mas isso não acontece de fato, e logo é deixado de lado para continuar com as outras histórias. A participação de Danny em um episódio já não tem mais nada a ver com Heróis de Aluguel, e apenas serve para desenvolver mais a dinâmica entre eles. Em Os Defensores não foi mostrado se Danny perdoou Luke por tê-lo prendido em uma cadeira, mas pelo visto sim, já que depois foi mostrado que Luke foi enganado também. Eles não são exatamente amigos, tanto que Luke não manteve mais contato com ele até o momento em que ele aparece, mas mesmo assim eles têm uma dinâmica muito boa juntos.

Danny está diferente de antes. Agora ele consegue usar o chi na mão quando quer, e até a personalidade dele também está diferente. Ele parece estar mais esperto e menos ingênuo. Eu gostava daquele Danny de antes, mas é bom ver que ele amadureceu durante esse tempo que já passou aqui no mundo. Só não gostei quando ele disse que não trabalha na empresa dele e não vive daquele dinheiro, já que na primeira temporada ele lutou para ter a sua parte de volta, e sempre está precisando de favores da empresa e do dinheiro dele. Se ele não está trabalhando na empresa, como é que consegue “fazer a Rand comprar” um galpão para ele tocar fogo? Ele deveria valorizar mais o dinheiro e a empresa e ficar mais de dentro dela, até mesmo para ela não ser mais usada pelos vilões, como aconteceu na primeira temporada de Punho de Ferro. Estou curioso para saber em mais detalhes como é que ele está e como anda a empresa dele e os outros personagens.

É legal que quando tem as trocas de poderes no Harlem’s Paradise, o novo dono sempre troca o quadro, mas sempre é mostrado a imagem daquele homem com a coroa, e a pessoa em frente ao quadro, com apenas a coroa aparecendo, simbolizando que agora é ela que está no poder. Isso começou na temporada passada quando Cornell ainda era o “rei”.

Luke Cage - 2ª temporada - Mariah

Mariah Dillard

Luke Cage fez bem mais referências aos outros personagens das séries da Marvel/Netflix do que Jessica Jones, que preferiu se fechar mais em sua própria história e seus próprios personagens. Luke Cage faz duas referências a Matt, e uma a Jessica. Mas a maior conexão mesmo fica com Punho de Ferro, já que Danny e Colleen participam da série em episódios diferentes, e sempre há citações a eles. Eu gosto disso, porque integra as séries sem necessariamente amarrar tudo, como são os filmes da Marvel.

Sobre o último episódio e a forma como as coisas terminaram, eu não gostei do final dado a Luke Cage. Primeiro ele diz que queria queimar o Harlem’s Paradise quando o advogado diz que ele a recebeu de herança, e de repente está lá no comando da boate sendo tratado como um rico mimado, vestido bem, tendo segurança e ajuda para vestir o paletó. Mariah foi muito inteligente (novamente) em ter planejado acabar com Luke Cage mesmo depois da sua morte. Tudo o que ela falou deverá acontecer, na próxima temporada, provavelmente: Luke achando que no poder poderá controlar tudo, depois se tornando um gangster (ou no mínimo um anti-herói), para depois cair de vez (e depois se reerguer voltando às suas origens). A partir de agora ele já está agindo meio como um anti-herói, já que ao aceitar o Harlem’s Paradise, é como se ele aceitasse ser o chefe do Harlem, e a partir daí, negociar com os bandidos para que a criminalidade diminua lá, ao invés de simplesmente entregá-los à polícia. É por isso que D.W rompeu com ele, porque disse que agindo dessa forma ele está se tornando o chefe do crime.

Os vilões dessa temporada foram ótimos. Mariah estava ótima, mas foi bom ter morrido, senão começaria a ficar repetitivo a partir da próxima temporada. Gostei da atuação de Alfre Woodard. Bushmaster também foi muito bom, apesar de seu final não ter sido como o esperado. Pelo menos não acabou de forma clichê, como na temporada passada. O final dessa temporada foi bem inesperada, e isso é bom. Eu preferia que Bushmaster tivesse matado Mariah, ele foi para o Harlem para isso, e no fim de tudo nada do que ele fez deu certo.

Tilda foi mais uma ótima personagem, e aos poucos ela vai mudando. No final ela matou a mãe mais como uma vingança pessoal, por ela ter falado aquelas coisas duras, do que por ela ser uma mulher fria que é capaz de matar tantas pessoas. Mas o que ela não percebeu é que indo por esse caminho, ela está se tornando igual à mãe. Primeiro mata alguém, depois renega o sobrenome Stockes. Agora só falta lutar contra Luke Cage por causa do Harlem's Paradise.

Essa 2ª temporada de Luke Cage foi ótima. Teve seus pontos negativos, mas o resultado final foi muito bom.

Nota:

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Crianças também são más

Existe uma máxima popular que diz que criança não mente. Mentira, criança mente sim. Eu mesmo me lembro de ter uns 4 ou 5 anos e de ter mentido para a minha mãe quando ela perguntou se fui eu que tinha feito algo, e eu balancei a cabeça dizendo que não, quando na verdade eu tinha feito. Menti porque estava com medo de apanhar. E olhe que eu era um menino bonzinho e obediente. Quando se diz que o homem já nasce em pecado, isso é verdade, pois desde a mais tenra idade já fazemos coisas erradas. A diferença é que crianças, principalmente as pequenas, não têm noção do que fazem e não sabem as consequências. Mas as maiores sabem, e se fazem algo ruim, dependendo do que seja, já pode ser de forma consciente ou instintiva, mostrando sem medo ou vergonha o pior lado do ser humano.

Crianças e adolescentes, por não terem maturidade e vergonha, fazem e falam o que quiserem, sem querer saber o quanto estão atingindo os outros. Elas não ligam em obedecer às regras básicas da sociedade de educação para o bom convívio entre as pessoas. Simplesmente dizem o que pensam na cara, riem uns dos outros, tiram sarro. É daí que vem o bullying. E é claro que muitas vezes tudo isso nasce da falta de comunicação entre os pais e a criança ou adolescente. Os pais deveriam conversar e ensinar os seus filhos a se comportar, a não falar e fazer certos tipos de coisas, a não rir e zoar o colega, mesmo que algo possa parecer engraçado. Se todos os pais fizessem isso com seus filhos o nível de bullying nas escolas diminuiria muito.

Esses dias vi esse tweet, que foi a inspiração para eu escrever esse post (eu já estava com ele em mente faz tempo, mas só agora saiu da minha mente e foi ao “papel”):


Dê uma olhada nas respostas desse tweet, são vários casos parecidos.

Imediatamente lembrei de um caso parecido que vivenciei: quando eu estava na 6ª série, atual 7º ano, com 12 anos de idade, tinha na minha sala uma menina do Rio de Janeiro, que tinha se mudado para cá (Recife) com a família. Ela passou um ano na escola, e disse que ia voltar para o Rio no ano seguinte, e que achava lá melhor. Não lembro bem se ela conseguiu fazer amizade com as outras meninas, mas se conseguiu, não era a mesma amizade que as outras meninas mantinham umas com as outras. Ela era meio que escanteada. Certamente ela sofria com as diferenças entre um estado e outro e com a sua dificuldade de se integrar totalmente por causa do seu sotaque. Os meninos bagunceiros da sala chamavam ela de Carioca, ao invés de lhe chamarem pelo seu nome, e foi assim o ano inteiro. E imitavam o sotaque dela e depois riam.

As crianças também são más, elas são muito más, e os adolescentes também. Quem mais sofre são as crianças boazinhas, obedientes, exemplares ou quietas. A sociedade não aceita bem as diferenças, e é por isso que introvertidos e tímidos são vistos como pessoas que “precisam melhorar”. E isso começa desde quando somos crianças. A diferença entre os adultos e as crianças é que estas não tentam fingir, ou passar uma imagem de boa pessoa ou de educada. As crianças simplesmente vão lá e dizem o que pensam, fazem o que querem, custe o que custar, independentemente de o quanto aquilo pode ferir ou prejudicar as outras crianças. Já os adultos mantêm seus preconceitos e opiniões guardadas. Elas ainda existem, só que de forma velada.

domingo, 8 de julho de 2018

Resenha: Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha

Victoria e Abdul - O Confidente da Rainha - Pôster nacionalTítulo Original: Victoria and Abdul

Título Nacional: Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha

Direção: Stephen Frears

Gênero: Drama, biografia, história

Duração: 1h52min

Estreia: 16 de novembro de 2017







Atenção: esta resenha contém spoilers.

Victoria e Abdul – O Confidente da Rainha conta a história de como um indiano comum que foi enviado para uma missão na Inglaterra viria a se tornar um amigo pessoal da rainha Victoria, já velha e cansada das rotinas na Corte. O filme toca no mesmo tema tratado por The Crown, sobre como a rainha só serve para como uma imagem do país para cumprir protocolos e ordens, sem ter uma real autoridade. Ele mostra como a rainha já está cansada disso tudo, como ela acha tudo aquilo uma hipocrisia, e como a Coroa pode ser ameaçada se o monarca tentar tomar decisões além do recomendado. Mostra como a sociedade britânica adora, obedece e respeita o monarca e a família real, mas apenas como uma convenção enquanto tudo vai bem. Se algo sair do roteiro já escrito, todos já se sentem ofendidos, inclusive os criados, que ousam até questionar as decisões da rainha.

Uma diferença entre esse filme e The Crown é que na época em que o filme se passa, o tratamento dado à rainha era com mais pompa, em relação a como a atual rainha é tratada. Por exemplo, no começo do filme, quando a rainha entra na sala, antes dela entrar é tocado instrumentos de sopro para anunciar a sua entrada.

A rainha fala sobre como é solitário estar naquela posição, como tem pressão, como ela não pode contar e nem confiar em ninguém, nem mesmo na sua família. Por causa do cansaço em obedecer todas as regras que o cargo impõe e por causa da solidão, Victoria vê em Abdul uma pessoa diferente, uma pessoa que lhe admira e respeita, mas ao mesmo tempo lhe trata como uma pessoa comum, e que não tenta mandar nela, que não diz o que ela deve fazer, uma pessoa que é verdadeiramente gentil. É daí que nasce a amizade entre eles.

Mas por causa da sua aproximação com a rainha, Abdul sofre de inveja e de outras pessoas tentando derrubar o seu tapete. A família real e os criados não gostavam dele por ser indiano, o que lhe colocaria como uma pessoa inferior, por ser o colonizado, e também por ser “de cor”, como é mencionado por um personagem do filme em determinado momento. Os criados não gostavam dele porque em tão pouco tempo ele conquistou a amizade da rainha e estava sempre ao lado dela, coisa que nenhum dos outros, que já estavam lá há tanto tempo, tiveram oportunidade.

O ódio ou vergonha que o filho de Victoria sentia por Abdul era tanta, que ele ameaçou destituir a própria mãe da coroa (segundo o filme, não sei se na vida real isso aconteceu), e depois que ela morreu mandou acabar com tudo, para que não sobrasse nenhum vestígio de que no Palácio de Buckingham existiu um servo indiano que era próximo à rainha. Os rastros foram tão bem destruídos, que essa história só veio ser descoberta em 2010, nos diários de Abdul.

Achei interessante a forma como a rainha Victoria fala, sempre se referindo a si mesma como “nós” e não “eu”. Provavelmente esse era um costume dos antigos monarcas da Inglaterra que se perdeu hoje em dia. Mas já ouvi falar que até hoje o inglês da Inglaterra tem dois sotaques diferentes, um falado pela elite, e outro pelo povo em si.

O filme é muito bom e conta uma bonita história. Mais uma vez vemos como é difícil ser rei ou rainha de um país, como não se pode mandar em nada de verdade, e quando se tenta, você é ameaçado e pressionado por todos os lados. Mostra também como era alto o preconceito antigamente, tanto pela cor da pele, quanto pelo país de origem da pessoa.

Nota:

Publicado por Jóckisan às 22:51 em   |   Edit

Paixão e desespero

Um dia, na faculdade, apareceu uma menina nova. Ela era linda. Era loira e tinha olhos verdes. Me apaixonei por ela naquele mesmo momento em que a vi pela primeira vez. Enquanto lhe olhava fixamente sem perceber, caí na real quando ela olhou para mim e me pegou no flagra. Virei o rosto rapidamente para outro lugar, envergonhado. Na hora do intervalo saí da sala e sentei num banco que tinha do lado de fora. Dois minutos depois ela sentou-se ao meu lado. Fiquei gelado, de tão nervoso. Ela ficou calada por alguns segundos, que para mim pareciam eternos, como que procurando algo para falar, e então disse um singelo “oi”. Apresentou-se, dizendo o seu nome, que prefiro não dizer aqui para preservar a sua identidade. Então eu disse o meu nome a ela também. Depois a gente continuou calado, num silêncio constrangedor. Então a gente riu, porque aquilo estava realmente vergonhoso. Foi aí que percebi que ela também estava gostando de mim.

Na volta do intervalo o professor passou um trabalho em dupla. Eu perguntei a ela se queria fazer dupla comigo, e ela disse que sim. Perguntei onde ela morava, e era no meu bairro, o que foi um alívio para mim, porque se ela fosse de longe seria mais difícil de nos encontrarmos para fazer o trabalho. A partir daí desenvolvemos uma amizade, e a gente se dava muito bem. O tempo passou.

Um dia eu estava na casa dela, e ela estava sozinha. Conversa vai, conversa vem, o clima começou a esquentar. Apesar da gente gostar um do outro, nenhum dos dois teve coragem de assumir isso e iniciar um namoro. A gente estava sentado no chão e com as costas encostadas na parede, um do lado do outro. Estávamos próximos um do outro. Então ela se encostou rapidamente em mim e me beijou. Eu senti a língua dela entrando na minha boca, e foi uma sensação diferente de tudo o que eu tinha sentido antes. É diferente, mas é bom. Eu não coloquei a minha língua na boca dela, porque nunca tinha beijado antes, então não sabia como fazer, e além disso tinha sido pego de surpresa. Eu sentia a pressão da boca dela sobre a minha.

O que aconteceu depois foi tão rápido, que eu nem me dei conta, e hoje mal me lembro de algumas partes. Era quase como se eu estivesse bêbado. Só sei que tiramos nossas roupas e tivemos um momento de amor e prazer, ali mesmo, no chão da sala, encostados na parede. Não sei descrever a sensação que tive naquele momento, apenas posso dizer que foi intenso. Eu passando as mãos pelo corpo dela, e ela passando suas mãos pelo meu, e em outros momentos me apertando. Beijos calorosos e arrepios. Toda a nossa timidez em não oficializar um namoro, mesmo nós dois sabendo que um gostava do outro, e todo o tempo perdido, foi totalmente compensado nesse momento. Foi bom, não vou mentir.

Mas depois disso fiquei com medo, mas não disse nada. Então ela me disse que não devíamos ter feito isso, e que queria que fosse feito apenas depois do casamento. Eu concordei, porque era nisso que eu estava pensando também. Então combinamos de não fazer mais isso, e de namorar oficialmente. Eu fui apresentado aos pais dela como namorado, e ela aos meus pais como minha namorada.

Tudo ia bem, às mil maravilhas, quando algum tempo depois ela me veio com a notícia de que estava grávida. Parece que o chão sob meus pés desapareceu. E depois ela me veio com outra bomba: ela e a família estavam de mudança para Gana. Os pais dela vivem bem de vida, e o pai já se aposentou. Disse que quando chegasse esse momento ele iria querer viajar para algum país africano para fazer trabalho social e morar por lá um bom tempo. A gente já estava acabando o último período da faculdade, então no ano seguinte eles seguiriam em viajem. “E agora, o que eu faço?” era a pergunta que rondava a minha cabeça. Eu estava desesperado e envergonhado. Como eu ia dizer aos meus pais que a minha namorada estava grávida? Com que cara eu iria olhar para eles? Logo eu, que sempre fui o certinho. Com que cara eu iria olhar para os pais da minha namorada?

E como eu iria criar aquele filho? Eu nem sequer tinha um emprego! Eu, que era tão jovem, não conseguia me imaginar com um filho. Estava apenas começando a minha vida e já teria que assumir tamanha responsabilidade. Eu nunca tinha imaginado que isso aconteceria um dia. Mas o pior de tudo não é isso. O pior é que ela vai viajar para Gana, e com ela o nosso filho, que provavelmente eu nunca iria conhecer. Eu estava profundamente angustiado. Estava com um olhar fixado no chão, pensando em tudo isso.

Então olhei para ela, e ela estava em lágrimas. Percebi que não era só eu que estava desesperado. Ela me disse que não saberia viver sem mim, e que agora iria ter um filho comigo e não sabia o que iria fazer. Naquele momento o que eu pensei foi que erramos em termos feito o que fizemos, e que agora o erro foi duplo, porque ele trouxe essa séria consequência. Mas não adiantava dizer isso a ela, porque não ajudaria em nada. E na verdade, eu estava na mesma situação que ela, com muitas dúvidas e medos, e procurando respostas. O que eu pude oferecer era o que eu também precisava, um abraço. Ficamos abraçados durante um tempo. Chorei também.

Depois perguntei se ela já tinha falado aos pais dela, e ela disse que ainda não, mas que estava com medo de como eles iriam reagir. Eu disse que também estava com medo. Então eu disse que tinha que ir, porque já estava quase na hora do pai dela voltar do trabalho, e eu não queria olhar para ele naquele momento. Disse que ela deveria dizer aos pais dela ainda naquela noite, e que eu diria aos meus. Então saí e fui em direção à minha casa treinando as palavras que iria dizer aos meus pais, e prendendo o choro na rua.

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*Ficção. Essa história foi baseada num sonho que tive essa noite e que foi bem louco. As partes que se baseiam no sonho são apenas a parte do beijo, e depois a parte em que descubro que vou ter um filho e que ela está indo morar em Gana. Assim que acordei pensei: “Vish, que sonho horrível! Deus me livre disso acontecer comigo!”. Todo o resto eu criei para contextualizar essas partes do sonho. Adoraria ir mais longe nessa história, mas como sempre, não sei mais o que dizer a partir desse ponto. Estou pesando em começar a disponibilizar outras ideias que tenho para sites de escrita na internet para que outras pessoas continuem a história. Talvez seja melhor do que ficar esperando eu ter alguma ideia de novo para continuar a história, o que nunca acontece (só não sei se isso daria certo ou se apareceria interessados).

Sobre a parte do sonho que eu fico desesperado em saber que vou ter um filho, acho que esse é um sentimento que alguns jovens nessa situação devem ter, principalmente quando não têm emprego, ou se tiverem, não têm condições suficientes para manter uma família ainda. Eu particularmente quando vejo o pessoal se casando com 22, 23 anos acho absurdo, porque acho muito cedo. Eu mesmo tenho 23 anos e não me acho preparado para ter uma vida independente de casado e para ter filhos agora, e não falo só de questões financeiras. E me acho novo demais para isso também. Acho que a minha reação no sonho tem muito a ver com essa minha opinião, e provavelmente seria a reação que eu teria na vida real, caso algo como isso acontecesse comigo. Sobre a viagem para Gana, eu não sei de onde surgiu isso! kkkk Talvez tenha sido porque um dia eu pesquisei sobre ele depois de ter assistido a um episódio de The Crown que falava de uma questão política entre Reino Unido e Gana, mas isso faz tempo, foi no começo do ano!

segunda-feira, 25 de junho de 2018

Apocalipse foi uma novela de oportunidades desperdiçadas

Apocalipse - Record - logo

Apocalipse foi uma novela muito polêmica desde seu segundo capítulo. Ela começou dando boa audiência na primeira semana, mas que foi caindo dia após dia até chegar a marcar médias de 6 pontos, não raro chegando a 5. Esse vexame fez a Record trocar o horário da reprise de Os Dez Mandamentos para que a migração para Apocalipse fosse maior. A estratégia funcionou e Apocalipse passou a marcar médias de 8 pontos, mas mesmo assim esse é um resultado inferior aos das novelas bíblicas anteriores. O motivo é que a primeira fase da novela é muito sombria e isso certamente deve ter assustado muitas pessoas. As cores eram escuras, tinha um crime sendo investigado pela polícia, que apesar de garantir boas cenas de ação, tinha um visual pesado, e sempre que um personagem estava prestes a fazer algo de ruim aparecia uma nuvem preta atrás dele, simbolizando o mal (que depois deixa de aparecer na novela). Tudo isso deve ter desestimulado o telespectador a continuar assistindo a novela, já que as outras novelas bíblicas eram mais leves e positivas.

Outro motivo que deve ter contribuído foi a grande polêmica que começou a partir do segundo capítulo envolvendo a Igreja Católica. Um dos personagens era um sacerdote católico, e ele foi mostrado como um personagem usado pelo Diabo, e a Igreja Católica foi considerada uma igreja do mal. A novela não cita a Igreja Católica em nenhum momento. Ao invés disso eles deram um novo nome à igreja, que foi chamada de Igreja da Sagrada Luz. Mesmo assim, a intenção era representar a Igreja Católica e isso fica óbvio na novela. Essa foi uma decisão ousada da Record, mesmo sabendo que parte do seu público era católico, e mesmo sabendo que a novela já tinha sido vendida antes mesmo da produção para o México, que é um país muito católico. Não acho que esse foi o motivo principal da queda da audiência e da rejeição geral, mas com certeza foi um motivo que fez algumas pessoas desistirem de assistir à novela por terem se sentido ofendidas. Pessoalmente, como evangélico concordo com a posição adotada pela novela. Não é que realmente irá acontecer o que a novela mostrou em relação à Igreja Católica, porque isso foi uma decisão criativa, mas a novela pelo menos mostrou sua posição como evangélica. O que eu não entendia era as pessoas reclamando da Record por ter feito isso. Será que ainda não tinha ficado claro que aquela era uma novela evangélica? Ainda mais se tratando de Apocalipse, que é um livro cheio de símbolos, e que por isso cada igreja tem uma interpretação diferente. A interpretação usada pela novela foi obviamente a da Universal.

Tem uma cena específica da primeira fase que simboliza bem o quão sombrio estavam deixando a novela, que é a cena em que Débora descobre que está grávida e então começa a se remexer no chão como se estivesse endemoniada. Apesar de pessoalmente não ter nada contra a postura mais sombria adotada no começo da novela (porque já estou acostumado a assistir séries e filmes assim), achei essa cena exagerada e desnecessária. E além disso, o público de novela não está acostumado a ver cenas tão sombrias e escuras quanto aquelas que estavam sendo mostradas na primeira fase da novela. Se cenas sombrias fossem colocadas numa novela das 11h da Globo, talvez a aceitação fosse maior, mas acho que nem mesmo numa novela das 9h isso seria bem aceito pelo público, haja visto as más experiências com cenas mais fortes em algumas das novelas passadas nesse horário.

Depois da primeira fase é que as coisas começam a ficar mais claras (nas cores) e mais leves, surgindo os personagens cômicos. Mas aí o estrago já estava feito e a audiência já tinha caído. No meio de todos esses problemas iniciais é bom destacar que Apocalipse estava recebendo de Belaventura, que dava médias de 6 pontos. Tudo bem que antes O Rico e Lázaro também recebia nesse patamar, e conseguia aumentar mais 3 pontos, mas quando Belaventura começou, O Rico e Lázaro já estava bem estabelecido e estável na sua audiência. Esse é outro ponto que merece ser considerado na avaliação da má audiência inicial.

Sobre os personagens, eu tive a sensação que tinha muitos núcleos. Cada capítulo que ia passando ia surgindo cada vez mais personagens e eu achei que estavam lotando a novela. Fiquei com medo de um núcleo jovem, que começou aparecendo em grupo e sozinhos, tendo discursões de adolescentes, ganhasse destaque e tempo próprio de tela. Não sei se esse era o objetivo inicial, mas ainda bem que não foi para frente. Depois os personagens adolescentes importantes apareceram apenas individualmente, cada um com sua história e dentro do seu núcleo familiar. Depois do arrebatamento tem um enxugamento de personagens, e talvez foi por isso que colocaram tantos no começo.

Zoe e Benjamin foram protagonistas que eu não gostei. Eles são chatos, querem ser rebeldes, querem ser corajosos e isso termina prejudicando eles mesmos e o grupo. A ideia de Zoe aparecer publicamente para Ricardo para ficar mais segura não faz nenhum sentido, e depois a própria novela mostra isso, já que a imprensa ficou do lado de Ricardo, e depois Ricardo mandou caçá-los. Mesmo assim no final da novela eles cometem o mesmo erro mais duas vezes achando que assim vão conseguir resolver as coisas, quando na verdade só pioram. E Zoe e Benjamin fazem o que fazem mais por eles mesmos, mais para mostrar que são rebeldes e não estão do lado de Ricardo do que com o intuito de evangelizar.

Apocalipse - Record - Zoe e Benjamin

Zoe e Benjamin

Dito isso, a história da novela gira muito em torno deles. A novela não mostra outros cristãos sendo procurados e massacrados, mostra apenas o grupo de Zoe e Benjamin. E pelo jeito que as coisas foram feitas eles pareciam serem procurados mais por serem rebeldes que não aceitam o regime do que por serem cristãos que não aceitam receber a marca da besta, o que eu achei um absurdo. Cadê todos os cristãos que deveriam estar sendo procurados, torturados e mortos por não aceitarem a marca? A novela não mostra, e os que mostra sendo mortos tem a ver de alguma forma com Zoe e Benjamin. Inclusive o prazo de adesão da marca é muito longo e se estende até o fim da novela, o que faz não fazer sentido uma caçada atrás dos cristãos, e sim uma caçada atrás de rebeldes, como a novela mostra. Isso foge totalmente do que a Bíblia diz e deixa a novela mais parecida com filmes de ficção do que com a narrativa bíblica de fato. Mais uma vez o núcleo de Zoe e Benjamin fica no destaque e toda a história gira em torno deles, ignorando todas as outras pessoas. Sem contar que Zoe e Benjamin não parecem ter fé forte. Eles são personagens muito comuns e não são carismáticos. São chatos, na verdade. Outros personagens se juntaram ao grupo dos “rebeldes” sem nunca ao menos ter frequentado a igreja ou lido a Bíblia, mas somente porque são contra o que Ricardo está fazendo, como se o simples fato de não ter a marca já fosse motivo para terem a salvação. A novela não mostra eles se convertendo, e sim apenas se juntando a um grupo de fugitivos, como se isso já fizesse deles cristãos. Isso termina colaborando ainda mais com a imagem de que as pessoas do grupo são mais rebeldes do que cristãos que não aceitaram a marca e por isso são perseguidos.

A novela também resolveu alguns problemas tão facilmente que chegou a soar grotesco, como por exemplo, um avião com 300 pessoas que cai e todo mundo morre menos Zoe, que sai de lá apenas com um ferimento na perna, mas inteira (e detalhe: são os poucos destroços e corpos no chão). Ou o notebook que consegue se conectar à internet no deserto e que nunca acaba sua bateria. Ou quando todo mundo vive falando que não dá para viajar sem a marca, mesmo estando ainda no prazo para receber, mas mesmo assim todo mundo consegue. E a queda da estrela absinto (que a novela mostrou como sendo um asteroide, uma boa interpretação), que só atingiu o Brasil? A Bíblia diz que ela irá atingir a terça parte dos rios e assim muita gente irá morrer por falta de água potável. A novela só mostra as pessoas reclamando de água em poucos momentos, que é quando começa a escassez de água e comida, mas isso foi antes da queda do asteroide. E depois que ele caiu, atingiu muitas cidades brasileiras, e apenas isso. Depois não foi mostrada nenhuma consequência para os personagens. Foi uma solução fácil e preguiçosa da novela.

A enrolação com o núcleo Zoe-Benjamin é tanta que nos últimos capítulos várias e várias coisas que acontecem no livro do Apocalipse são apenas citados e mostrados rapidamente na tela, enquanto o tempo é adiantado (“tempos depois...”, “dias depois...”, “três anos depois...”). Por que fizeram assim? Porque não teve tempo para mostrar tudo? Não, foi porque se perderam quando resolveram se concentrar mais nas histórias individuais dos personagens do que nas histórias do livro do Apocalipse. A novela segue bom ritmo e narra bem as histórias do Apocalipse até a parte em que Jerusalém é tomada e o anticristo entra no templo, mas depois disso as coisas começam a desandar. Água virando sangue, um terço da população mundial morta e o maior terremoto de todos os tempos foram apenas citados e mostrados em cenas rápidas, mas não exploraram o potencial narrativo que esses acontecimentos poderiam ter na novela.

Nos últimos capítulos é tanto personagem morrendo, que você nem sente o peso daquilo. Tudo se torna tão banal que você nem se choca, porque logo depois já tem outra morte. Não dá tempo formar uma surpresa e assimilar aquilo. Se a novela fosse melhor desenvolvida, as mortes seriam bem espaçadas, para dar a cada uma um valor e um peso à trama, para fazer o telespectador sentir a ruindade e frieza de Ricardo, e não apenas observar como se aquilo fosse nada.

Ricardo, quanto personagem, ficou muito bom, e Sergio Marone fez muito bem o papel. O olhar dele é frio e cru, o seu sorriso também. Ele fica com uma cara ainda mais sinistra depois que fica com o olho cego no rosto, que tem cor azul. O personagem mudou ao longo da novela. Ele começou como um homem gentil, inteligente, educado, e à medida que ia ascendendo ao poder ia revelando mais a sua personalidade maléfica e satânica, e ia deixando isso mais claro para que qualquer pessoa pudesse ver, já que no começo ele disfarçava. Gostei da parte criativa feita para justificar alguns acontecimentos bíblicos, e fez todo o sentido. Por exemplo, depois que Jesus volta, existem 3 anos e meio de uma falsa paz. Mas como que o anticristo iria conseguir isso? Sendo um líder carismático, convencendo as pessoas e os líderes mundiais, parecendo ser uma boa pessoa. É por isso que no começo Ricardo tem um jeito mais gentil.

Deu para ver também uma certa inspiração em Kim Jong-un, nas roupas que Ricardo usa depois que vira o líder do mundo e também no título “Líder Supremo”. E para completar ainda mais as semelhanças, lá na Coreia do Norte Kim Jong-un é adorado como um deus e nenhuma outra religião é permitida. Vi também inspiração no nazismo para fazer as bandeiras que representam o Governo Único.

Apocalipse - Record - Ricardo Montana

Ricardo Montana, o Anticristo

Sobre o último capítulo, eu esperava mais. Cadê a batalha do Armagedom? Não teve! Mais uma vez a novela errou ao focar todas as suas atenções apenas em Zoe e Benjamin. Benjamin ia ter sua cabeça cortada quando Jesus voltou (muito conveniente, justo com o protagonista da novela) e não teve guerra nenhuma. E os soldados do anticristo que estavam lá eram pouquíssimos. Os cristãos e judeus (que agora também são cristãos) reunidos no acampamento também eram muito poucos. Nem criar uma quantidade maior de pessoas pelo computador eles fizeram. Alguns capítulos antes Zoe diz ao grupo, quando ainda estavam no Rio de Janeiro: “Precisamos ir ao deserto porque é lá que Jesus vai voltar”. Isso não faz o menor sentido. Quer dizer que todos os outros cristãos do mundo que não puderam ir para o deserto não vão ir para o céu porque não estiveram lá? Nada a ver. Eu realmente esperava algo grandioso para o último capítulo. O filme Megiddo foi bem melhor (mas não que ele seja perfeito). Na verdade, tem vários filmes sobre o Apocalipse que mostram a perseguição aos cristãos melhor do que foi mostrado na novela, de forma mais realista e menos pessoal.

Os efeitos da novela ficaram muito bons. Os aviões de guerra de modelos futuristas ficaram muito bonitos e reais, assim também como os outros efeitos usados em outros momentos. A exceção é o exército de robôs, que ficou bem feio. O jeito de andar deles era ridículo, pareciam que estavam rebolando. Os cenários receberam bons investimentos, já que os personagens mudam de casa, escritório, etc., ao longo da novela.

Por fim, Apocalipse foi uma boa novela no geral, mas com altos e baixos, do seu início ao fim. Escolhas erradas fizeram ela tomar caminhos duvidosos. Certamente era uma novela com muito potencial, mas que teve várias chances desperdiçadas. Só para deixar registrado, também não gostei da sensualização da novela. Falavam o tempo todo abertamente em “fazer sexo”, “transar”, “pegar”, “traçar”. Tudo bem que esse linguajar existe e muita gente fala abertamente sobre isso, mas não achei apropriado para uma novela evangélica. Nesse ponto deveriam ser mais conservadores, assim como foram nas outras novelas bíblicas.

Nota:

3.7/5